O que acontece quando o designer de carros mais bem-sucedido da Fórmula 1 assume total controle de uma equipe que opera com um orçamento aparentemente ilimitado e tecnologia ultracara e de ponta? Um fracasso, ao que parece.
A grande surpresa dos testes de pré-temporada da Formula 1 foi ver o radical e chamativo carro da Aston Martin, projetado pelo renomado Adrian Newey, na parte inferior da tabela de tempos — às vezes mais lento do que a nova equipe Cadillac — chegando ao Grande Prêmio da Austrália, que abre a temporada neste fim de semana, lutando apenas para manter seu carro pouco confiável funcionando.
Aos 44 anos, um ano no fundo do grid não é o que o bicampeão mundial de F1 Fernando Alonso precisa, e as dificuldades podem potencialmente causar atritos com a fornecedora de motores Honda.
Newey recebeu controle total como chefe de equipe, em possivelmente seu papel mais direto desde que foi engenheiro de Mario Andretti na IndyCar nos anos 1980. Então, o que deu errado?
O grande problema é que não existe um único grande problema. O motor Honda parece carecer de potência, mas o relacionamento exclusivo de fábrica da Aston Martin com a montadora japonesa significa que não há outra equipe com motor Honda para comparação ou aprendizado.
Alonso demonstrou grande confiança em Newey durante os testes no Bahrein no mês passado, mas foi mais cauteloso ao falar da Honda:
“Quanto ao chassi, não há dúvidas. Temos o melhor conosco. Após mais de 30 anos de Adrian Newey dominando o esporte, acho que ninguém duvida de que encontraremos uma maneira de ter o melhor carro eventualmente.
“Quanto à unidade de potência, precisamos esperar para ver quando desbloquearmos todo o desempenho, onde estamos, o que está faltando, e então trabalhar duro”, acrescentou o veterano espanhol.
O problema da Aston é falta de Newey?

A Aston Martin também enfrenta problemas de confiabilidade e parece ainda pouco desenvolvida após chegar atrasada ao primeiro teste e perder tempo valioso na pista devido a quebras.
Problemas na bateria limitaram o tempo de testes no Bahrein enquanto a Honda trabalhava para resolver a questão. A Aston Martin também aparentou ter dificuldades com o câmbio e escassez de peças.
Após acertar sua saída da Red Bull Racing, Adrian Newey precisou esperar até março de 2025 para iniciar na Aston Martin, inicialmente como “parceiro técnico gerente”.
Isso ocorreu quando outras equipes já estavam bem avançadas no desenvolvimento de seus projetos para 2026. Newey comentou que tem trabalhado longas jornadas e afirmou, em novembro, que sua esposa Amanda reclamou que ele estava em um “transe de design” e pouco sociável.
“Minha já limitada capacidade de processamento está totalmente concentrada na tarefa em mãos, diante desses prazos urgentes, mas esse não é um estado para se manter por muito tempo”, acrescentou.
Newey ainda esboça ideias em uma prancheta para explorar conceitos de design e conta com instalações novíssimas, construídas a alto custo pelo proprietário da equipe, Lawrence Stroll.
Um lugar notável na história do automobilismo
Adrian Newey também demonstra ceticismo quanto a transferir processos-chave de design para a inteligência artificial.
“Mesmo com a IA avançando tão rapidamente quanto está, ainda estamos muito longe disso. Depende muito das ideias humanas e isso é, suponho, a essência da Fórmula 1. Essa capacidade de conceituar, reagir rapidamente e ser autocrítico.”
Muito antes de se tornar uma lenda da Formula 1, Newey viajava constantemente entre o Reino Unido e os Estados Unidos em meados dos anos 1980, projetando carros vencedores das 500 Milhas de Indianápolis e colocando a mão na massa nos boxes para preparar os carros de grandes nomes como Mario Andretti, seu filho Michael Andretti e Bobby Rahal.
Era uma rotina exaustiva, mas todos os voos noturnos deram a Newey tempo para desenvolver conceitos que mais tarde revolucionariam o design na F1.
“Quando olho para minhas ideias agora, consigo identificar quais delas surgiram durante os voos sobre o
Atlântico”, escreveu em sua autobiografia de 2017.
Os projetos de Newey transformaram a F1, conquistando 12 títulos de construtores e 13 campeonatos de pilotos — desde o título de Nigel Mansell com a Williams em 1992 até o quarto campeonato consecutivo de Max Verstappen com a Red Bull Racing em 2024.
A saída de Newey da Red Bull naquele ano ocorreu após 18 temporadas na equipe, depois do domínio recorde com o RB19 no ano anterior e em meio a um período de incertezas envolvendo o chefe de equipe Christian Horner e o astro Max Verstappen.